Qual é o cheiro do seu pai? A memória afetiva também passa pelo olfato
Muito antes de uma fotografia ou de uma música, o olfato é um dos sentidos mais poderosos para despertar lembranças. No mês do Dia dos Pais, especialista explica por que um simples aroma pode transportar o cérebro para momentos da infância e como essa conexão tem sido compreendida também por empresas que investem em branding olfativo.
Basta sentir um aroma específico para que a memória faça uma viagem no tempo. O cheiro do café passado logo cedo, da loção pós-barba usada antes do trabalho, da madeira da oficina, do banco de couro do carro ou até da fumaça da churrasqueira em um domingo de família. Em poucos segundos, lembranças que pareciam esquecidas voltam à tona com uma intensidade difícil de explicar.
Não é apenas impressão. A ciência mostra que o olfato possui uma relação única com a memória e as emoções. Diferentemente dos demais sentidos, as informações olfativas chegam rapidamente a estruturas cerebrais como a amígdala, responsável pelo processamento das emoções, e o hipocampo, fundamental para a formação das memórias. Essa conexão ajuda a explicar por que um cheiro pode despertar sentimentos tão profundos, mesmo muitos anos depois.
Pesquisadores da Universidade Rockefeller, nos Estados Unidos, estimam que o ser humano consegue distinguir mais de um trilhão de estímulos olfativos. Já estudos publicados por pesquisadores da Universidade Brown mostram que as lembranças evocadas pelos aromas costumam ser mais vívidas e emocionalmente intensas do que aquelas despertadas por imagens ou sons.
No mês em que o Dia dos Pais convida à celebração das histórias em família, o tema ganha um significado ainda mais especial.
Para a perfumista e aromaterapeuta Rebeca Galhardo, fundadora da Cadeaux Brasil, o aroma funciona como uma assinatura emocional.
“Costumamos guardar fotografias para recordar momentos, mas poucas pessoas percebem que também colecionamos lembranças pelos cheiros. Muitas vezes, um aroma consegue nos transportar para um abraço, uma conversa ou uma fase da vida sem que precisemos fazer qualquer esforço consciente.”
Muito além do perfume
Quando se fala em memória olfativa, muita gente pensa apenas no perfume usado por uma pessoa. Mas os aromas que marcam uma história vão muito além disso.
“O cheiro de um pai pode estar na espuma de barbear, no café preparado todas as manhãs, na oficina onde ele trabalhava, no jardim de casa, na madeira, no carro ou até na roupa recém-passada. São fragrâncias que fazem parte da rotina e acabam sendo registradas pelo cérebro como símbolos daquela pessoa”, explica Rebeca.
Segundo ela, justamente por despertar emoções tão profundas, o olfato tem ganhado espaço em diferentes áreas, inclusive no mundo dos negócios.
O cheiro também comunica
Se antes o cuidado com fragrâncias era associado quase exclusivamente aos perfumes pessoais, hoje empresas perceberam que o olfato também pode transmitir identidade.
É o conceito conhecido como branding olfativo, estratégia utilizada para criar uma assinatura sensorial para marcas, lojas, hotéis, escritórios, consultórios e eventos.
Mais do que perfumar um ambiente, o objetivo é construir uma experiência coerente com a identidade da empresa e fortalecer a lembrança da marca.
“Assim como uma identidade visual comunica quem uma empresa é, o aroma também pode transmitir personalidade. Quando pensamos em branding olfativo, estamos falando de criar uma memória emocional para quem entra naquele ambiente.”
Rebeca observa que esse interesse deixou de ser um universo predominantemente feminino.
“Hoje vemos muitos empresários procurando fragrâncias para seus escritórios, consultórios e empresas. Eles entendem que o ambiente também comunica profissionalismo, acolhimento e identidade. O aroma deixou de ser apenas um detalhe decorativo para se tornar parte da experiência.”
Presentes que permanecem na memória
Talvez seja justamente por isso que presentes ligados à experiência sensorial tenham ganhado espaço em datas comemorativas.
Em vez de representar apenas um objeto, eles despertam lembranças que podem acompanhar uma família por muitos anos.
“No fim das contas, não lembramos apenas do que recebemos. Lembramos de como nos sentimos. E os aromas têm uma capacidade única de preservar essas emoções.”
Neste Dia dos Pais, talvez a melhor pergunta não seja qual presente escolher, mas qual cheiro faz você lembrar dele.
BOX
Qual cheiro faz você lembrar do seu pai?
A resposta muda de pessoa para pessoa, mas algumas lembranças costumam ser universais:
● café passado logo cedo;
● loção pós-barba;
● perfume usado diariamente;
● sabonete;
● madeira da oficina;
● banco de couro do carro;
● fumaça da churrasqueira;
● terra molhada;
● camisa recém-passada;
● folhas de hortelã ou plantas do quintal.
A ciência explica que essas lembranças permanecem vivas porque o olfato está diretamente conectado às áreas do cérebro responsáveis pelas emoções e pela memória.
(Fotos: Divulgação)

