Na disputa por terras raras, Brasil pode ganhar relevância estratégica, aponta Erick Boniz
Especialista em Relações Internacionais e comunicador, Erick Boniz avalia os impactos da disputa tecnológica entre China e Estados Unidos sobre os recursos minerais estratégicos brasileiros.
A disputa entre China e Estados Unidos pelo domínio de tecnologias estratégicas está colocando as terras raras no centro da geopolítica mundial. O Brasil, dono de uma das maiores reservas desses minerais no planeta, pode ganhar espaço nessa nova configuração, mas ainda enfrenta um desafio: transformar sua vantagem geológica em capacidade industrial e tecnológica.
As terras raras são um grupo de 17 elementos químicos utilizados na fabricação de ímãs permanentes, motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos, robôs industriais e sistemas de defesa. A crescente demanda por essas tecnologias transformou os minerais em ativos estratégicos para governos e empresas.
O Brasil possui aproximadamente 11,4 milhões de toneladas de reservas de terras raras, segundo dados da Agência Nacional de Mineração (ANM). O volume coloca o país entre os maiores detentores desses recursos no mundo, atrás da China.
O problema é que possuir a reserva não significa controlar a cadeia produtiva.
A China construiu durante décadas uma estrutura que envolve mineração, separação, refino, produção de materiais e fabricação de ímãs. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), em 2024 o país respondeu por cerca de 60% da produção mundial de terras raras utilizadas em ímãs, 91% do refino e 94% da fabricação de ímãs permanentes sinterizados.
Essa concentração tornou-se uma questão estratégica para as principais economias do mundo.
Em abril de 2025, Pequim estabeleceu controles de exportação sobre determinadas terras raras e produtos relacionados. A medida provocou dificuldades de abastecimento para indústrias em diferentes países e mostrou como o domínio de uma cadeia de minerais críticos pode ser utilizado como instrumento de pressão econômica.
Os Estados Unidos passaram a acelerar investimentos para desenvolver fontes alternativas de fornecimento e reduzir sua dependência da China. O esforço envolve não apenas novas minas, mas também a construção de capacidade de processamento e fabricação de componentes.
A corrida americana por fornecedores alternativos ajuda a explicar o crescente interesse pelas reservas brasileiras.
Um dos principais projetos do país está em Minaçu, Goiás. A Serra Verde iniciou sua produção comercial de terras raras em 2024 e utiliza depósitos de argila iônica, considerados relevantes pela presença de elementos utilizados na fabricação de produtos tecnológicos.
Em 2026, o projeto ganhou uma dimensão internacional ainda maior com a aquisição do Grupo Serra Verde pela empresa americana USA Rare Earth. O movimento reforçou o interesse dos Estados Unidos em desenvolver uma cadeia de fornecimento fora da China e colocou um ativo brasileiro dentro da estratégia americana de diversificação de minerais críticos.
A questão central para o Brasil, portanto, não é apenas quanto possui de terras raras, mas qual posição pretende ocupar nessa cadeia.
“Ter uma das maiores reservas de terras raras do mundo é uma vantagem, mas não significa automaticamente possuir poder estratégico. O Brasil precisa pensar em como transformar esse recurso em tecnologia, indústria e conhecimento”, afirma Boniz.
A mineração representa apenas o primeiro estágio. Depois da extração, as terras raras precisam passar por processos de concentração, separação e refino. Em seguida, podem ser transformadas em ligas, metais e ímãs permanentes utilizados pela indústria.
São justamente essas etapas que concentram maior conhecimento tecnológico e valor agregado.
Enquanto o Brasil ainda desenvolve sua capacidade de processamento, a China possui uma cadeia industrial consolidada e integrada. Essa estrutura permite que o país asiático não apenas extraia e refine os minerais, mas também fabrique os componentes que abastecem setores estratégicos da economia mundial.
Os Estados Unidos tentam justamente reduzir essa diferença.
A competição entre Washington e Pequim também está relacionada à transição energética. Veículos elétricos e turbinas eólicas dependem de ímãs permanentes de alta eficiência, enquanto setores de defesa e tecnologia utilizam diferentes terras raras em equipamentos e sistemas avançados.
A Agência Internacional de Energia projeta crescimento da demanda por terras raras utilizadas em ímãs ao longo dos próximos anos, impulsionado pela expansão dos veículos elétricos, das energias renováveis, da automação e de outras tecnologias.
Isso aumenta o valor estratégico de países capazes de fornecer esses minerais de maneira estável.
O Brasil possui uma característica adicional que pode favorecer sua posição: mantém relações econômicas relevantes tanto com a China quanto com os Estados Unidos e possui relações comerciais com a União Europeia e outros mercados.
Essa diversidade permite ao país evitar uma dependência exclusiva de um único centro de poder. Ao mesmo tempo, exige uma política capaz de transformar o interesse internacional em benefícios de longo prazo.
“O Brasil não precisa escolher entre China e Estados Unidos. Pode trabalhar com diferentes parceiros, mas precisa saber o que pretende obter dessas relações. Se existe interesse internacional em um recurso estratégico brasileiro, é preciso discutir também tecnologia, pesquisa, formação profissional e desenvolvimento industrial”, avalia Boniz.
A questão tecnológica é um dos principais obstáculos para o desenvolvimento do setor no país. Estudos conduzidos com participação do Ministério de Minas e Energia apontam a necessidade de avançar em etapas como separação, refino e produção de materiais de maior valor agregado.
O desenvolvimento dessa cadeia não será imediato. A experiência chinesa mostra que a construção de capacidade industrial exige décadas de investimentos e formação de conhecimento. Para o Brasil, o desafio é aproveitar o atual momento de transformação das cadeias globais para acelerar esse processo.
A busca das grandes economias por fornecedores alternativos pode abrir uma janela de oportunidade para países com reservas relevantes. Nesse cenário, o Brasil pode deixar de ser apenas um potencial fornecedor de matéria-prima e passar a desempenhar um papel mais relevante na cadeia internacional.
Mas isso dependerá das decisões tomadas agora.
Se o país concentrar seus esforços apenas na extração e exportação, poderá aumentar sua participação no mercado sem necessariamente aumentar sua influência tecnológica. Se avançar para processamento, refino, produção de materiais e fabricação de componentes, poderá capturar uma parcela maior do valor gerado pela cadeia.
A disputa pelas terras raras mostra como recursos naturais e tecnologia estão cada vez mais ligados à geopolítica. A China utiliza sua liderança industrial para fortalecer sua posição internacional, enquanto os Estados Unidos investem para recuperar capacidade e reduzir vulnerabilidades.
No meio dessa disputa está o Brasil, com reservas expressivas e uma posição diplomática que permite dialogar com diferentes potências.
O tamanho dessa oportunidade, entretanto, não será determinado apenas pela quantidade de minerais existentes no território brasileiro.
Será determinado pela capacidade do país de transformar reservas em tecnologia, tecnologia em indústria e indústria em influência econômica.
É essa transformação que poderá definir se as terras raras serão apenas mais um produto da pauta de exportações brasileira ou um dos instrumentos capazes de aumentar a relevância estratégica do país nas próximas décadas.
(Crédito: Divulgação)

