Menopausa impacta sono, trabalho e saúde mental, mas também pode marcar fase de mais clareza e criatividade
A menopausa ainda é tratada como um assunto secundário. Mas os números mostram outra realidade.
Dados da The Menopause Society indicam que cerca de 70% das mulheres apresentam sintomas ao longo da transição menopausal, como ondas de calor, alterações no sono e oscilações de humor. Em alguns estudos, esse percentual pode chegar a 80%.
No Brasil, o tema ganha peso diante do envelhecimento da população feminina. Segundo o IBGE, mulheres são maioria entre a população acima dos 50 anos. Ainda assim, a menopausa segue sendo pouco discutida em espaços públicos e profissionais.
Uma pesquisa da Harvard Business School mostrou que mais de 60% das mulheres relatam impacto dos sintomas no desempenho profissional. Entre as que participaram do levantamento, muitas afirmaram evitar falar sobre o tema no ambiente de trabalho por medo de julgamento.
Para a psicanalista Camila Camaratta, esse silêncio tem um custo alto. “Existe um descompasso claro. O corpo muda, mas as exigências continuam as mesmas. Espera-se produtividade, estabilidade emocional e disponibilidade como se nada estivesse acontecendo”, afirma.
Entre os sintomas mais comuns está a alteração no sono. Durante a perimenopausa, há uma queda gradual da progesterona, hormônio que tem efeito calmante sobre o cérebro e contribui para a regulação do sono. Com isso, o descanso se torna mais leve e interrupções durante a madrugada passam a ser frequentes.
“Essa mulher acorda e não consegue mais voltar a dormir. E muitas vezes ela interpreta isso como ansiedade ou fragilidade emocional, quando há um componente biológico importante acontecendo”, explica Camila.
Segundo ela, compreender essa base neuro-hormonal muda a forma como a experiência é vivida. “Quando a mulher entende que não é uma falha pessoal, há um alívio imediato. Ela deixa de se culpar e passa a se escutar com mais cuidado.”
Mas a menopausa não se resume aos sintomas físicos.
Do ponto de vista psíquico, esse período costuma coincidir com uma reorganização interna. Em um momento em que muitas mulheres estão no auge da vida profissional e acumulam responsabilidades, surge também um movimento de revisão de prioridades.
“Na clínica, não aparece só o relato do corpo que mudou. Aparecem perguntas mais profundas. Quem eu sou agora. O que eu quero manter. O que já não faz mais sentido”, diz.
Esse processo pode estar ligado ao que estudos descrevem como pico criativo tardio, fase em que a produção intelectual e a capacidade de decisão ganham força na maturidade.
O psicanalista Erik Erikson definiu esse momento como generatividade, a necessidade de criar, produzir e transmitir algo ao mundo. Não apenas no sentido de filhos, mas de projetos, ideias e participação ativa na vida social.
Na prática, isso se traduz em escolhas mais conscientes. “Existe uma mudança importante. Antes, muitas decisões eram guiadas por expectativa externa. Nessa fase, começa a surgir uma seleção mais clara. O que vale a pena. O que não vale mais”, afirma Camila.
Exemplos na literatura ajudam a ilustrar esse movimento. Clarice Lispector escreveu A Hora da Estrela perto dos 50 anos. Simone de Beauvoir desenvolveu reflexões sobre envelhecimento também na maturidade.
Apesar disso, a menopausa ainda é pouco nomeada. Em muitos ambientes, principalmente no trabalho, os sintomas seguem invisíveis.
Para Camila, esse é um dos principais pontos de atenção. “Quando não se fala sobre isso, a mulher atravessa essa fase sozinha, achando que está falhando. E isso não é verdade.”
Ela destaca que o momento exige outro tipo de postura. “Não existe um manual para atravessar a menopausa. Existe um processo. E esse processo pede tempo, elaboração e uma escuta mais honesta de si mesma.”
Na prática, isso pode significar uma mudança de ritmo e de prioridade. “Antes havia um corpo que respondia a ciclos. Agora há um corpo que pede escuta. Isso muda tudo.”
Para além dos sintomas, a menopausa pode marcar o início de uma nova organização interna. Menos baseada no que é esperado e mais próxima do que é possível sustentar.
“Não é uma fase fácil. Mas pode ser uma fase muito verdadeira”, resume.
E, para muitas mulheres, é justamente aí que algo mais próprio começa.

