Fé, política e poder: Ordonay e Yago Martins lançam “Não Subirá” em período eleitoral
Em meio ao período eleitoral, a banda Ordonay coloca o dedo em uma ferida que atravessa parte do debate político brasileiro, a aproximação entre estruturas religiosas e projetos de poder. Em “Não Subirá”, single que chega às plataformas em 2 de outubro de 2026, o grupo transforma a insatisfação com essa relação em uma faixa de nu metal e funkcore. A música ainda conta com a participação do pastor e teólogo Yago Martins, conhecido pelo canal Dois Dedos de Teologia.
Ouça aqui: https://onerpm.link/204207302406
A crítica da Ordonay não mira uma candidatura específica. O alvo é uma prática que o grupo considera cada vez mais presente, o uso da estrutura, da influência e da autoridade de instituições religiosas para favorecer projetos políticos. Igrejas, cultos, podcasts e outros espaços ligados à fé aparecem, na discussão proposta pela música, como ambientes que podem deixar de ser exclusivamente religiosos para funcionar também como plataformas de exposição política.
A provocação começa no próprio título. “Não Subirá” estabelece uma inversão entre aqueles que buscam subir na estrutura de poder e a expectativa cristã pela volta de Jesus. A música questiona a ideia de transformar a fé em instrumento para alcançar influência, prestígio ou poder político, colocando essa busca em contraste com a própria mensagem religiosa que deveria orientar esses espaços.
Composição de Yago Martins
A composição surgiu de uma poesia escrita por Yago Martins a partir de sua percepção sobre pastores que, segundo ele, passam a “emprestar” sua reputação religiosa a projetos políticos. A crítica inclui situações em que políticos ocupam igrejas, programas religiosos e podcasts, fazendo com que ambientes originalmente destinados à discussão da fé assumam também características de palanque.
A partir dessa provocação, a Ordonay transforma a questão em música. A banda, que construiu sua identidade justamente a partir da disposição de tensionar assuntos considerados incômodos dentro do próprio meio cristão, encontra em “Não Subirá” um dos temas mais diretamente ligados à realidade política brasileira dos últimos anos.
Rock pesado para falar de poder
A escolha do nu metal e do funkcore não é casual. Para Dedel Marx, vocalista da Ordonay, a sonoridade pesada é a que melhor traduz a tensão presente no assunto. Guitarras, baixo, bateria e vocais agressivos acompanham uma discussão que não pretende oferecer uma mensagem confortável ao ouvinte.
O objetivo declarado pela banda é provocar reflexão sobre o que acontece quando a fé passa a ser subordinada a projetos políticos. Em vez de apresentar uma resposta eleitoral ou apontar um candidato como solução, “Não Subirá” questiona a própria utilização da religião como ferramenta de construção de poder.
A participação de Yago Martins acrescenta outra camada à faixa. O teólogo conheceu a Ordonay por meio dos vídeos que chegaram às suas recomendações no YouTube. Segundo Dedel, Yago afirmou ter escrito algo que tinha “a cara” da banda. A aproximação evoluiu para a gravação da música e para uma colaboração que une o discurso teológico do pastor à estética pesada do grupo.
O encontro também amplia o alcance da Ordonay para além do circuito underground em que a banda construiu sua trajetória. Yago Martins reúne uma audiência expressiva em torno do canal Dois Dedos de Teologia e já havia participado de outras produções musicais. Para o grupo, trabalhar ao lado de um dos nomes conhecidos da produção teológica brasileira representa um capítulo inédito em sua história.
Uma música no meio da disputa por influência
O lançamento de “Não Subirá”, em 2 de outubro, acontece em um momento em que a relação entre religião e política volta a ganhar visibilidade por causa do calendário eleitoral. O videoclipe chega no mesmo dia levando a discussão também para o audiovisual.
Confira o videoclipe:
A produção foi dirigida por Zé Maurício e editada por Juninho Vibration. A banda inteira participou da produção musical: Fábio Augusto toca bateria e assina a mixagem e a masterização; Dedel Marx é o vocalista; Jimmy Bontempo toca baixo; e Thiago de Gouveia P.A. assume as guitarras. Yago Martins aparece como compositor da faixa.
Mais do que uma música sobre eleições, “Não Subirá” se apresenta como uma crítica à mistura entre autoridade religiosa e poder político. A provocação está justamente em perguntar até onde uma instituição criada para tratar de fé pode ser utilizada como instrumento de influência política sem que sua própria mensagem seja afetada.
Ao levar esse debate para uma música pesada, a Ordonay mantém uma característica que acompanha sua trajetória: falar sobre assuntos desconfortáveis dentro do próprio ambiente de onde surgiu. Dessa vez, o alvo da tensão é a transformação da fé em ferramenta de poder — justamente quando o país volta a discutir intensamente quem ocupará os espaços de decisão.
Da igreja ao circuito underground
A história da Ordonay começou em 2011, na periferia de Brasília, quando três amigos que estudavam na mesma escola e frequentavam a mesma igreja decidiram montar uma banda para participar de um festival escolar. Inicialmente chamada Newday, a formação começou tocando repertório cristão antes de desenvolver suas próprias composições e construir uma identidade cada vez mais ligada ao circuito independente.
Em 2014, o grupo lançou seu primeiro EP, gravado em um home studio em Valparaíso de Goiás. Nos anos seguintes, a banda passou a circular por pubs, saraus, casas de show, campeonatos de skate, festas e outros espaços do Distrito Federal e entorno. A relação com o circuito cristão continuou existindo, mas deixou de ser o único ambiente de atuação do grupo.
Depois de lançar a primeira edição do “Ordonay Roots Sessions”, em 2018, a banda entrou em hiato no final de 2019. O retorno aconteceu em janeiro de 2023, com Dedel Marx novamente nos vocais e Fábio Augusto incorporado oficialmente à formação. Naquele ano, o grupo lançou o EP “Vanguarda Pacificadora” e posteriormente “De nada serve a luz se não for pra iluminar”.
Em 2025, a Ordonay lançou “Não à toa o inferno é quente”, primeiro álbum completo da banda. O trabalho ampliou a presença do grupo no circuito underground do rock cristão brasileiro e consolidou uma produção marcada por temas considerados incômodos, crítica social e referências à experiência de viver situações associadas a um “inferno na Terra”.
Em 2026, a banda retomou o “Ordonay Roots Sessions” e oficializou Jimmy Bontempo e Thiago Gouveia P.A. como integrantes. Aos 15 anos de trajetória, a Ordonay chega ao lançamento de “Não Subirá” com Dedel Marx, Fábio Augusto, Jimmy Bontempo e Thiago Gouveia P.A., mantendo a proposta de usar o peso do rock para colocar em discussão assuntos que ultrapassam os limites da música — desta vez, com a religião, a política e o poder no centro da conversa.

