Moda

A moda em tempos perfeitos de IA

Por Bia Willcox, advogada, empresária, educadora e jornalista.

Somos bonitas, mas estamos cansadas. Ou melhor, e obedecendo a norma culta da língua portuguesa, somos bonitos e estamos cansados, todos nós, homens e mulheres de todos os jeitos.

Cansados porque, se por um lado a autoestima da gente nunca teve tanto combustível (desenvolvo melhor depois), nós esgotamos de tanto filtro, tanta imagem perfeita, tanta tendência pasteurizada, tanta tela dizendo o que vestir, o que comprar e até quem ser ou quem imitar.

Há um esgotamento discreto em curso como água de rio represada cada dia mais. E assim começa um desejo crescente por frestas. Não para negar a tecnologia, mas para escapar da sua pedagogia mais cansativa: a do excesso e a do padrão.

Excesso de informação, de imagem, de comparação, de estímulo, de beleza. Excesso de futuro. Excesso de superfície. Excesso de formas prontas de existir.

E assim, há um tanto de gente que já volta os olhos e o corpo para a moda ancestral, humana, tátil, comportamental.

É um túnel do tempo terapêutico que leva para o retrô, o vintage, o analógico, o que já traz marcas do tempo, e até mesmo marcas de uso e não finca suas bandeiras somente no campo estético, mas sim no diferente, no transgressor, no velho original, ou seja, no rompimento de padrão e de respostas todas idênticas.

A moda em retrovisor ou humano-futurista começa a ditar as ruas, as festas, os festivais de música e os ambientes de trabalho. Ainda bem.

É preciso nos abrigarmos num lugar sem a rapidez e a perfeição das imagens em IA. O reencontro com referências de um tempo em que a vida parecia menos performada provoca um conforto especial, tipo casa da gente.

Não é saudosismo nem ludismo. É só respiro e liberdade. E a moda é sempre um dos primeiros atores da cena a gritar e se jogar de peito aberto. Vida sendo vida.

É tentar resgatar memórias nem sempre vividas de um tempo em que talvez fôssemos felizes e não soubéssemos. Ou, ao menos, em que ainda não precisávamos nos ver o tempo todo em selfie. A geração Z está entendendo isso muito bem, por sinal.

O descolamento sempre existiu quando se trata de moda que nunca foi sobre marcas ou designers somente e sim sobre atitude e comportamento. Mas esse descolamento agora é mais consciente e resistente a essa transformação profunda que ameaça a própria Humanidade.

A moda passa a ser o que não depende de etiqueta nem marca. Não precisa ser Gucci, nem ser tamanho 36, não precisa obedecer às cores da estação, não precisa ser franja, mas pode ser qualquer franja, não precisa ser novo, não precisa inventar demais pra se sentir bem. Pode ter brilho. Pode comprar barato sim. E pode comprar caro se quiser. Tudo pode desde que descansemos do compromisso da perfeição e da obrigação de seguir o rebanho.

Em meio a tantas imagens geradas, a tantos corpos corrigidos, a tantas combinações calculadas para agradar, cresce o valor do que nos escapa.

Nesse cenário, brechós e antiquários deixam de ser apenas alternativa econômica e passam a funcionar como espaços de criação e também de resistência simbólica. Eles devolvem circulação, memória e singularidade a objetos que escapam da lógica do descarte e da homogeneização do consumo.

Essa valorização do universo vintage não significa que as grandes marcas deixaram de importar. Significa, talvez, que o poder simbólico delas já não opera sozinho como antes.

O consumo contemporâneo embaralhou códigos. O que antes era raridade e símbolo de status tornou-se linguagem imitável “para todos”, uma estética reproduzível. E, nesse embaralhamento, muita gente passou a buscar valor em outro lugar: na autenticidade percebida, na curadoria pessoal, na combinação improvável, na peça com história, no garimpo, no reuso, na assinatura subjetiva do vestir.

A moda hoje defende a agência sobre o que se veste, como se veste e como se sente.

É essa moda e esse vestir que queremos. Aquela que nos remete ao mundo menor, ao mundo mais simples e menos algorítmico, democratizando o gosto, a escolha individual e a estética múltipla e inclusiva de gostos menos obedientes à lógica da repetição em massa do Instagram.

Por fim, pra não dizer que não falei das flores, lembro aqui, como apaixonada pela mágica da IA que sou, que ela trouxe, paradoxalmente, a liberdade de comprar roupas onde queremos, sem sair de casa. Podemos experimentar roupas bastando dar um upload em uma foto nossa de corpo inteiro. Podemos nos ver em diferentes figurinos em segundos e nos reinventarmos em tempos e lugares do planeta antes inimagináveis pra nós.

Há um lado genuinamente interessante — e até encantador — nessas ferramentas. Aplicativos de styling com IA, provadores virtuais e plataformas que ajudam a testar cores, cortes, combinações e estilos respondem a uma vontade real do nosso tempo: experimentar mais, errar menos, visualizar possibilidades, brincar com versões de si antes de investir nelas. Nesse sentido, a IA pode ser útil, criativa e até libertadora. Pode ampliar repertório, sugerir caminhos, encorajar ousadias e democratizar a experimentação estética.

Usará IA para gerar imagens da gente mesmo com outras roupas, outra estética, outros cenários e cabelos, pode ser o joguinho necessário no intervalo do almoço. Aquele momento em que nos sentimos diferenciados e que a autoestima é atualizada.

Não demonizo esse uso. Seria simplista demais. Pelo contrário, a IA como laboratório de ensaio, usada com parcimônia, ajuda a testar e a sonhar também. Ajuda a descobrir uma paleta, experimentar um corte, imaginar uma versão de si com mais coragem. Pode até tornar o consumo mais consciente, menos impulsivo, mais visualizado antes da compra. Falamos aqui de um provador ampliado da imaginação. Um espelho e um lugar de brincadeira com nosso próprio corpo e gosto.

No fim, talvez a melhor função da IA na moda não seja nos dizer quem devemos ser, mas nos devolver a coragem de brincar com quem podemos ser. Entre o algoritmo e o armário, ainda somos nós que damos à roupa seu sentido e à imagem, sua verdade.

Rede social: https://www.instagram.com/biawillcox/

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