Você escuta, mas não entende? Descubra esse Transtorno Auditivo pouco conhecido que afeta crianças, adultos e idosos no Brasil
O Transtorno do Processamento Auditivo Central interfere na aprendizagem, na produtividade no trabalho e na vida social, mas ainda é confundido com desatenção, envelhecimento ou estresse
Dificuldade para entender conversas em ambientes barulhentos, necessidade constante de pedir repetição, cansaço mental após reuniões, irritação com sons do cotidiano e queda no rendimento escolar ou profissional. Esses sinais, comuns em crianças, adolescentes, adultos e idosos, podem ter uma origem pouco conhecida: o Transtorno do Processamento Auditivo Central (TPAC).
Diferente da perda auditiva, o TPAC ocorre quando o cérebro tem dificuldade para organizar, interpretar e dar significado aos sons, mesmo quando a audiometria indica audição normal. Segundo a American Speech-Language-Hearing Association (ASHA), entre 2% e 5% das crianças em idade escolar apresentam alterações no processamento auditivo. Em adultos e idosos, o número é menos preciso, mas estudos alertam que a prevalência é significativa, especialmente em pessoas expostas a ambientes ruidosos, com comorbidades (com outros transtornos) com perda auditiva e envelhecimento.
“O processamento auditivo é uma função cerebral. Não basta ouvir o som, é preciso que o cérebro consiga analisá-lo, separar o que é relevante do que é ruído e compreender a mensagem”, explica a Dra Andréa Paz, fonoaudióloga, PhD em Fonoaudiologia, especialista em Audiologia e Processamento Auditivo.
Na infância, o transtorno costuma ser associado a dificuldades de aprendizagem, leitura e escrita, sendo frequentemente confundido com TDAH ou desinteresse escolar. “Muitas crianças são rotuladas como desatentas quando, na verdade, estão em esforço constante tentando entender o que o professor diz em salas ruidosas”, afirma Andréa.
Já na vida adulta, os impactos aparecem de forma diferente. Dificuldade de acompanhar reuniões, em aprender outros idiomas, cansaço extremo após longas conversas, irritação em ambientes com muitos estímulos sonoros e queda de produtividade são queixas frequentes. “O adulto começa a evitar interações sociais e situações profissionais que exigem muita escuta, o que afeta a carreira e a qualidade de vida”, diz a especialista.
Entre idosos, o processamento auditivo também merece atenção. Estudos apontam que o envelhecimento pode comprometer a forma como o cérebro lida com sons competitivos, mesmo quando a audição periférica está preservada. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 25% das pessoas com mais de 60 anos relatam dificuldade para compreender a fala em ambientes ruidosos, o que impacta diretamente a socialização e a saúde mental.
O cenário moderno contribui para o agravamento do problema. A OMS alerta que a exposição prolongada ao ruído pode gerar efeitos cognitivos e emocionais, como estresse, fadiga mental e dificuldade de concentração. Uso excessivo de telas, fones de ouvido e ambientes urbanos cada vez mais barulhentos sobrecarregam o sistema auditivo central.
O diagnóstico do TPAC é feito por meio de avaliação fonoaudiológica especializada, com testes que analisam como o cérebro processa diferentes estímulos sonoros. O tratamento envolve o Treinamento Auditivo, que busca reorganizar as habilidades auditivas e cognitivas de forma individualizada. “Não existe protocolo genérico. Cada cérebro responde de uma forma, e o tratamento precisa ser personalizado e baseado em evidência científica”, explica Andréa.
Para a especialista, ampliar o debate sobre o processamento auditivo é fundamental para evitar diagnósticos equivocados e reduzir sofrimento ao longo da vida. “Quando entendemos que o problema não é falta de atenção ou preguiça, mas uma dificuldade real do cérebro, conseguimos intervir de forma mais assertiva e devolver autonomia, desempenho e qualidade de vida às pessoas”, conclui.

