Quase 192 mil empresas estão inadimplentes no Ceará; “bola de neve” das dívidas acende alerta para empresários
Com cerca de R$ 3,09 bilhões em dívidas negativadas no Estado, Ceará tem o 3º maior número de empresas inadimplentes do Nordeste. Advogado alerta para empresas que recorrem a novos empréstimos para manter o negócio funcionando e explica quando a dívida pode ameaçar a sobrevivência da empresa e o patrimônio dos sócios
Pegar um empréstimo para pagar outro. Renegociar uma dívida e, meses depois, perceber que a nova parcela também já não cabe no caixa. Usar crédito para pagar fornecedores, folha salarial ou manter as despesas básicas da operação. Situações como essas podem ser sinais de que uma empresa deixou de enfrentar uma dificuldade financeira pontual e entrou em uma perigosa espiral de endividamento.
No Ceará, os números ajudam a dimensionar o problema. Dados do Indicador de Inadimplência das Empresas da Serasa Experian mostram que 191.849 empresas cearenses estavam inadimplentes em maio de 2026, terceiro maior volume do Nordeste, atrás apenas de Bahia e Pernambuco. Juntas, as empresas negativadas no Estado acumulavam aproximadamente R$ 3,09 bilhões em dívidas, com valor médio de R$ 16,1 mil por empresa.
O cenário local acompanha um problema que vem alcançando patamares históricos no País. Em julho, o Brasil chegou ao recorde de 9,2 milhões de empresas inadimplentes, acumulando R$ 238,6 bilhões em dívidas negativadas. Ao todo, eram 67,2 milhões de pendências financeiras, o equivalente a uma média de 7,3 dívidas por empresa.
Para o advogado empresarial Fleury Neto, os números acendem um alerta especialmente importante porque, em períodos de pressão sobre o caixa, o crédito que deveria ser uma ferramenta para financiar a atividade pode passar a ser utilizado apenas para manter a empresa funcionando.
“O problema não é a empresa ter dívida. Crédito faz parte da atividade empresarial. O sinal de alerta aparece quando o empresário começa a depender de novos empréstimos para pagar compromissos anteriores ou para sustentar despesas que deveriam ser suportadas pela própria operação. A partir daí, ele pode entrar em uma bola de neve que precisa ser interrompida antes que comprometa a continuidade do negócio”, explica.
Empréstimo para pagar empréstimo
O fenômeno ganha relevância em um cenário no qual o custo do crédito permanece elevado e empresas enfrentam maior dificuldade para reorganizar o fluxo de caixa. Entre os negócios negativados no Brasil, 8,7 milhões são micro e pequenas empresas, justamente aquelas que, em geral, possuem menor capacidade financeira para absorver longos períodos de desequilíbrio.
A pressão também aparece na origem das pendências. Dados da Serasa Experian referentes a julho mostram que bancos e cartões representavam 15,2% das dívidas negativadas das empresas e financeiras, outros 9,1%.
Mas, segundo Fleury Neto, o problema pode se tornar ainda mais complexo quando uma renegociação feita para aliviar momentaneamente o caixa apenas transfere a dificuldade para os meses seguintes.
“Renegociar não significa necessariamente resolver. O empresário precisa saber quanto efetivamente consegue pagar, quais juros estão sendo cobrados, quais garantias estão envolvidas e quais consequências aquele novo contrato poderá produzir. Se a empresa assume uma renegociação que continua incompatível com sua capacidade financeira, ela apenas ganha tempo e pode aumentar o tamanho do problema”, alerta.
A dívida da empresa pode chegar ao patrimônio do empresário?
Esse é outro ponto que costuma gerar preocupação entre empreendedores que enfrentam dificuldades financeiras. Em regra, empresa e sócios possuem patrimônios distintos, mas a exposição pessoal dependerá da natureza jurídica do negócio, das obrigações assumidas e, principalmente, das garantias oferecidas nos contratos. Em operações de crédito, é comum que instituições financeiras exijam aval, fiança ou outras garantias que podem ampliar a exposição dos sócios em caso de inadimplência.
Por isso, Fleury alerta que o empresário precisa compreender não apenas quanto está tomando emprestado, mas exatamente o que está oferecendo em garantia para conseguir aquele crédito.
“Na urgência de colocar dinheiro no caixa, é natural que o empresário concentre sua atenção no valor que será liberado e no tamanho da parcela. Mas é fundamental entender o contrato por inteiro. Dependendo das garantias prestadas, uma dificuldade que começou dentro da empresa pode produzir consequências também para o patrimônio do sócio”, explica.
A relação entre a saúde financeira das empresas e a dos próprios empresários já aparece nos levantamentos nacionais. Estudo divulgado pela Serasa Experian em julho mostrou que pequenas e médias empresas e seus principais sócios simultaneamente inadimplentes acumulavam mais de R$ 80 bilhões em dívidas.
Quando a dívida deixa de ser administrável?
A inadimplência, por si só, não significa que uma empresa esteja condenada a fechar as portas ou que precise imediatamente recorrer à recuperação judicial. Entre uma dificuldade de caixa e uma situação extrema existem alternativas que podem ser avaliadas.
O primeiro passo, segundo o advogado, é identificar o problema enquanto ainda existe margem de negociação.
Entre os principais sinais de alerta estão a necessidade recorrente de contratar crédito para pagar dívidas anteriores; uso frequente do limite bancário para financiar despesas ordinárias; comprometimento crescente do faturamento com parcelas e juros; atrasos simultâneos com bancos, fornecedores e tributos; oferecimento sucessivo de garantias pessoais; e dificuldade para projetar quando a empresa conseguirá voltar a operar com recursos próprios.
“Um dos maiores riscos é normalizar o endividamento. O empresário vai renegociando, tomando crédito, prorrogando vencimentos e oferecendo novas garantias até chegar a um ponto em que praticamente toda a geração de caixa está comprometida. É preciso olhar para o conjunto das dívidas e construir uma estratégia antes que a empresa perca sua capacidade de reação”, afirma Fleury Neto.
Negociar antes da cobrança pode ampliar alternativas
Mapear contratos e credores, identificar as dívidas mais caras, analisar as garantias já concedidas, calcular a capacidade real de pagamento e estruturar uma estratégia de negociação são medidas que podem ser adotadas antes de a situação chegar ao estágio mais crítico.
Segundo Fleury, procurar orientação somente quando a empresa já está sendo executada judicialmente pode reduzir consideravelmente as possibilidades de negociação.
“Quando a empresa ainda está funcionando e possui capacidade de geração de receita, há mais espaço para construir soluções. A pior estratégia é ignorar o problema esperando que o caixa se recupere sozinho. Quanto antes o empresário compreender o tamanho do passivo e os riscos jurídicos envolvidos, maiores serão as possibilidades de reorganização”, destaca.
Com quase 192 mil empresas cearenses negativadas e bilhões de reais em dívidas, o tema deixa de ser apenas uma questão financeira e passa a envolver também a sobrevivência dos negócios, a preservação de empregos e a proteção patrimonial de milhares de empreendedores.
Para Fleury Neto, a principal orientação é não esperar a dívida se transformar em emergência.
“Endividamento empresarial precisa ser enfrentado enquanto ainda existe poder de decisão. Quando a dívida passa a comandar todas as decisões da empresa, o empresário já perdeu uma parte importante dessa liberdade. O objetivo é agir antes de chegar a esse ponto”, conclui.

