Economia e Negócios

Liderar sem deixar de ser mulher: a nova geração de executivas que está redefinindo o sucesso nas empresas

Cada vez mais presentes em cargos de liderança, mulheres desafiam antigos padrões do mercado corporativo e mostram que competência, empatia e autenticidade podem caminhar juntas. Em setores tradicionalmente masculinos, como a indústria, elas também começam a ocupar posições estratégicas e a transformar a forma de liderar.

Durante muito tempo, o mundo corporativo foi construído sob a lógica de que liderança exigia rigidez, competitividade extrema e um perfil predominantemente masculino. Para muitas mulheres, alcançar posições estratégicas significava adaptar comportamentos, esconder vulnerabilidades e, em alguns casos, abrir mão de aspectos da própria identidade para conquistar respeito.

Embora esse cenário esteja mudando, os desafios ainda são significativos.

Segundo o estudo Women in Business 2025, da Grant Thornton, as mulheres ocupam 34% dos cargos de liderança nas empresas de médio porte em todo o mundo, o maior percentual já registrado pela pesquisa desde sua criação. No Brasil, o avanço também é gradual, mas setores como indústria, engenharia, infraestrutura e tecnologia ainda apresentam baixa participação feminina em funções executivas.

Ao mesmo tempo, pesquisas vêm demonstrando que diversidade e equilíbrio nas lideranças deixaram de ser apenas pautas de inclusão para se tornarem fatores de competitividade. Um levantamento da McKinsey & Company mostra que empresas com maior diversidade de gênero entre executivos apresentam maior probabilidade de superar seus concorrentes em desempenho financeiro, enquanto estudos da Deloitte apontam que ambientes diversos favorecem inovação, retenção de talentos e melhores processos de tomada de decisão.

Mais do que ampliar números, a presença feminina vem mudando a própria concepção de liderança.

Em vez da figura do gestor distante e centralizador, ganha espaço um perfil baseado na capacidade de comunicação, inteligência emocional, colaboração e construção de equipes de alta performance.

Essa transformação também começa a acontecer em setores historicamente ocupados por homens.

Na indústria, por exemplo, mulheres assumem cada vez mais posições estratégicas em áreas administrativas, financeiras e de gestão, contribuindo diretamente para decisões que impactam o crescimento das empresas.

Para a empresária Priscilla Pascoal, executiva de uma empresa que atua no segmento de válvulas, acessórios e serviços industriais, essa mudança passa pela valorização da autenticidade.

“Durante muito tempo existiu uma ideia de que, para conquistar respeito em determinados ambientes, a mulher precisava endurecer o comportamento ou abrir mão da própria essência. Felizmente, isso está mudando. Hoje percebo que as empresas valorizam líderes capazes de ouvir, construir relações de confiança e tomar decisões equilibradas. Liderança não depende de gênero. Depende de competência, responsabilidade e capacidade de desenvolver pessoas.”

A executiva destaca que atuar diariamente em um ambiente predominantemente masculino nunca significou abandonar características que fazem parte da sua identidade.

“Eu nunca enxerguei a feminilidade como um obstáculo para minha carreira. Pelo contrário. A organização, a sensibilidade para lidar com pessoas, a comunicação e a inteligência emocional sempre foram ferramentas importantes para administrar equipes, negociar e resolver problemas.”

O desafio invisível de equilibrar diferentes papéis

Além da carreira executiva, muitas mulheres acumulam responsabilidades familiares e domésticas, um cenário que ainda evidencia desigualdades.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que as mulheres continuam dedicando significativamente mais horas semanais aos cuidados da casa e da família do que os homens, mesmo quando possuem jornada de trabalho formal equivalente.

Essa dupla — ou muitas vezes tripla — jornada faz parte da realidade de milhares de profissionais que ocupam posições de liderança.

Para Priscilla, mãe de três filhos, o equilíbrio não significa perfeição.

“A ideia de dar conta de tudo o tempo todo gera uma pressão enorme sobre as mulheres. Na prática, equilíbrio é fazer escolhas conscientes todos os dias. Existem momentos em que a empresa exige mais de mim e outros em que a família precisa ser prioridade. O importante é entender que uma coisa não anula a outra.”

Segundo ela, maternidade e liderança compartilham habilidades importantes.

“Ser mãe me tornou uma gestora melhor. Aprendi sobre organização, planejamento, escuta, negociação, administração de conflitos e gestão do tempo em um nível que nenhum curso ensina. Essas experiências caminham juntas.”

Autoridade construída pela coerência

Em um cenário no qual a imagem profissional é cada vez mais exposta pelas redes sociais, cresce também a preocupação com autenticidade.

Para especialistas em reputação corporativa, marcas pessoais consistentes não são construídas apenas por cargos ou resultados financeiros, mas pela coerência entre discurso, comportamento e valores.

É justamente esse movimento que vem redefinindo o perfil de muitas executivas brasileiras, que passaram a compartilhar não apenas conquistas profissionais, mas também aprendizados, desafios e experiências do cotidiano.

Na avaliação de Priscilla, essa transparência aproxima lideranças das pessoas.

“As pessoas não se conectam apenas com currículos. Elas se conectam com histórias verdadeiras.

Mostrar que existe uma mulher por trás da executiva não diminui minha autoridade. Pelo contrário. Humaniza a liderança e fortalece a confiança.”

Uma nova definição de sucesso

O conceito tradicional de sucesso, muitas vezes associado exclusivamente ao crescimento financeiro ou à ascensão profissional, também vem sendo revisto.

Para uma geração de líderes que busca integrar carreira, família, saúde e qualidade de vida, o sucesso passou a significar a capacidade de construir uma trajetória sustentável.

“Hoje acredito que sucesso não é escolher entre carreira ou família. É construir uma vida na qual esses diferentes papéis façam sentido. Não existe uma fórmula única, mas existe a possibilidade de criar uma trajetória alinhada aos próprios valores. E acredito que essa é uma das maiores transformações da liderança feminina contemporânea.”

(Crédito: Arquivo Pessoal)

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