Economia e Negócios

Sucessão em empresas familiares mineiras: planejamento começa antes da aposentadoria

Em meio ao desafio de preservar patrimônio e garantir a continuidade dos negócios entre gerações, wealth planning ganha espaço entre famílias empresárias

Negócios que começaram pequenos, muitas vezes conduzidos por pais e filhos, hoje movimentam setores inteiros da economia regional. No entanto, quando chega o momento de transferir o comando ou o patrimônio para a próxima geração, muitas empresas enfrentam dificuldades por falta de planejamento.

Especialistas em gestão patrimonial e educação financeira destacam que a sucessão empresarial não deve começar apenas quando o fundador decide iniciar a transição do comando do negócio. O ideal é que esse processo seja estruturado com antecedência, como parte de um planejamento de longo prazo que envolva tanto o futuro da empresa quanto a organização do patrimônio familiar.

No Brasil, onde cerca de 90% das empresas têm perfil familiar, de acordo com dados do Sebrae, a transição entre gerações ainda representa um dos principais pontos de fragilidade dos negócios. A estatística é conhecida e desafiadora. De acordo com dados do Banco Mundial, apenas 30% das empresas familiares sobrevivem até a terceira geração. Em um contexto marcado pela maior transferência intergeracional de patrimônio da história, o tema passou a exigir planejamento estruturado, preparo dos herdeiros e estratégias patrimoniais de longo prazo.

Em Minas Gerais, as empresas enfrentam um desafio comum: a transição de comando e a preservação do patrimônio. De acordo com o levantamento “Negócios Familiares” da regional mineira do Sebrae, aproximadamente 40% dos pequenos empreendimentos no estado possuem gestão familiar. Tais companhias englobam desde MEIs até empresas de pequeno porte. Os dados demonstram ainda que cerca de 50% desses negócios concentram dois entes familiares na operação direta, enquanto estruturas com três e quatro membros representam 24% e 11%, respectivamente. 

Educação financeira e visão de longo prazo
Um dos primeiros passos para uma sucessão com êxito é desenvolver uma cultura de educação financeira dentro da família empresária. Marcela Torres, líder da XP em Minas Gerais, explica que essa etapa envolve ampliar a transparência sobre o funcionamento do negócio, promover o planejamento patrimonial e estimular a compreensão das responsabilidades financeiras que acompanham a gestão e a continuidade do patrimônio.

“Quando os herdeiros têm conhecimento sobre gestão, investimentos e governança, a transição tende a ser mais tranquila”, avalia ela, para quem a sucessão deixa de ser apenas um momento de transferência de bens e passa a ser um processo de continuidade do legado empresarial.

Nesse contexto, Marcela diz que um dos instrumentos que vêm ganhando espaço é o Wealth Planning, serviço de planejamento patrimonial voltado à administração, preservação e crescimento dos recursos de uma pessoa ou família ao longo do tempo. O maior benefício desse tipo de planejamento é ajudar indivíduos e famílias a preservarem seus recursos e acelerarem o crescimento do patrimônio da melhor forma possível, sempre alinhando as decisões financeiras aos objetivos de longo prazo.

Na prática, o Wealth Planning considera tanto fatores presentes, como gestão de custos e organização dos investimentos, quanto aspectos futuros, entre eles o planejamento sucessório. Na área de investimentos, o serviço também tem papel importante na seleção de ativos mais adequados para cada objetivo familiar ou individual.

Enquanto a gestão patrimonial tradicional costuma focar no tempo presente, muitas vezes ligado ao ambiente empresarial, o Wealth Planning amplia essa visão e passa a contemplar o patrimônio de forma integrada, considerando o contexto familiar e o horizonte.

“Nesse processo, a figura do assessor de investimentos é fundamental. Ele deixa de ser um selecionador de ativos para se tornar o consultor que identifica os riscos sucessórios e conecta a família às soluções de proteção e perpetuidade do legado. O foco expandiu da rentabilidade imediata para a construção de estruturas sólidas que atravessam gerações”, comenta Marcela.

Herança não é o mesmo que sucessão planejada
É comum que muitas famílias confundam herança e sucessão, embora se tratem de conceitos diferentes na prática. A herança ocorre após o falecimento do titular do patrimônio e segue as regras previstas na legislação, muitas vezes exigindo inventário judicial ou extrajudicial. Esse processo pode ser demorado, gerar custos elevados e provocar disputas entre familiares.

Já a sucessão patrimonial acontece ainda em vida, com a organização prévia da transferência de bens, participação societária e responsabilidades na empresa. É nessa fase que muitos negócios contratam especialistas em investimentos para ajudar na organização do patrimônio financeiro da família e estruturar estratégias de longo prazo. Marcela Torres lembra que nesse momento a ajuda especializada também é importante para avaliar a melhor forma de distribuir ativos, a fim de alinhar o planejamento sucessório com os objetivos da família e do negócio.

“No âmbito do Wealth Planning, esse trabalho também envolve a organização de todos os ativos financeiros e patrimoniais, como empresas, propriedades e investimentos, e o planejamento da transferência desses bens para os herdeiros ou beneficiários definidos pela família”, lembra. 

O processo pode ainda envolver medidas como a criação de testamentos, definição de governança familiar, nomeação de representantes legais e outras estruturas que ajudam a dar mais clareza à sucessão. Entre os principais objetivos está reduzir a carga tributária associada à transmissão de bens e garantir que o patrimônio construído ao longo de décadas seja preservado e administrado de forma eficiente pelas próximas gerações. 

No Brasil, um dos principais fatores que impulsionam esse tipo de planejamento é a incidência do ITCMD (Imposto de Transmissão por Causa Mortis e Doação), tributo obrigatório cobrado sobre a transferência de bens por herança ou doação. 

Em Minas Gerais, o teto fixado é 5%, mas pode chegar a até 8%, de acordo com o bem do imóvel. “Pode parecer um percentual pequeno, mas quando falamos de patrimônios mais elevados, representa um custo significativo para a família, e muitas não estão preparadas para esse custo”, alerta Marcela.

A sucessão empresarial bem estruturada não se resume à transferência de bens ou do comando da empresa, mas à construção de um processo organizado que preserve o patrimônio e garanta a continuidade do negócio ao longo das gerações. Quando há planejamento, diálogo familiar e apoio de profissionais especializados, a transição tende a ocorrer de forma mais segura e eficiente, reduzindo riscos de conflitos, custos inesperados e impactos financeiros. Em um estado marcado por empresas familiares fortes, preparar a sucessão com antecedência é, cada vez mais, uma estratégia para proteger o legado construído e assegurar que ele continue gerando valor no futuro.

Foto/Magnific/Freepik

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