Empresas devem buscar estruturar ações contínuas de cuidado emocional para além do Janeiro Branco, aponta especialista
A atenção à saúde emocional dos trabalhadores tem ganhado espaço nas agendas corporativas, especialmente durante o Janeiro Branco, campanha dedicada à conscientização sobre saúde mental. No entanto, as ações pontuais realizadas apenas em datas específicas não são suficientes: Especialistas defendem estratégias contínuas, integradas à cultura organizacional, para prevenir adoecimentos e promover ambientes de trabalho mais saudáveis.
Nos últimos anos, a discussão sobre saúde mental no ambiente corporativo tem se intensificado, impulsionada pelo aumento de afastamentos por transtornos psicológicos, altos níveis de estresse e dificuldades de engajamento das equipes. Embora o Janeiro Branco funcione como um importante marco de sensibilização, profissionais da área reforçam que o cuidado emocional precisa ser tratado como uma política permanente, e não como uma campanha isolada.
Segundo Fernanda Macedo, diretora e psicóloga da Life DH, empresa especializada em desenvolvimento humano e saúde emocional nas organizações, um dos principais desafios está na forma como o tema é abordado pelas empresas. “Muitas organizações ainda tratam a saúde emocional como uma ação emergencial ou apenas como resposta a crises. O cuidado precisa ser preventivo, contínuo e alinhado à realidade dos colaboradores”, afirma.
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgados em setembro de 2025, apontam que mais de um bilhão de pessoas vivem com transtornos mentais, e a ansiedade e a depressão são as condições mais prevalentes.
Entre as soluções aplicáveis para empresas que desejam estruturar ações consistentes estão diagnósticos psicossociais, programas de escuta qualificada, capacitação de lideranças para gestão emocional das equipes, acompanhamento psicológico e ações educativas que promovam letramento emocional no ambiente de trabalho. A integração dessas iniciativas ao planejamento estratégico da empresa é apontada como fator essencial para resultados efetivos.
No entanto, erros recorrentes ainda comprometem a efetividade dessas ações. Entre os mais comuns estão a adoção de palestras pontuais sem continuidade, a terceirização do cuidado emocional sem acompanhamento interno, a falta de preparo das lideranças para lidar com questões emocionais e a comunicação superficial, que pode reforçar estigmas ou gerar desconfiança entre os colaboradores.
Para Fernanda Macedo, a coerência entre discurso e prática é determinante. “Não adianta falar sobre saúde mental se o ambiente continua adoecedor, com sobrecarga, metas inalcançáveis e relações pouco saudáveis. O cuidado emocional começa na forma como a empresa organiza o trabalho e se relaciona com as pessoas”, destaca.
A especialista também ressalta que o Janeiro Branco deve ser encarado como um ponto de partida para reflexões mais profundas. “A campanha é uma oportunidade de abrir diálogo, mas o impacto real acontece quando as empresas transformam essa conscientização em ações permanentes, com acompanhamento e avaliação contínua”, conclui.

